Durante muito
tempo o criacionismo religioso predominou nos conceitos humanos,
pelo fato de cada religião ter sua própria teoria a respeito
da origem dos seres, admitindo que as suas diferentes espécies
são imutáveis. No século XVIII, porém, a partir do trabalho de
cientistas como Charles Darwin, surgiram novas idéias sobre a
origem e a evolução dos seres vivos. A palavra final ainda não
foi dita, e a Ciência hoje se equilibra nas seguintes conclusões:
A
Terra se formou há pelo menos 4,5 bilhões de anos, através da
condensação de poeira cósmica liberada pela grande explosão (Big
Bang) que originou o universo. É bom salientar que, enquanto
os criacionistas admitem o planeta ter somente de 6 a 10 mil
anos de existência, o pesquisador e escritor americano Henry
Thomas, no livro "A História da raça humana", diz que "foram
necessários 40 milhões de anos para que o macaco se transformasse
no homem-macaco. Mais de 300 mil anos levou ele para aprender
a andar de cabeça erguida e para matar sua presa com instrumentos
de pedra".
Depois
de 1,5 bilhão de anos com o resfriamento da superfície terrestre,
esta abrigou as primeiras organizações moleculares. Delas apareceram
os sistemas protéicos, e estes primitivos elementos foram se
tornando cada vez mais complexos, até se tornarem às células
que hoje conhecemos como seres unicelulares, tanto vegetais quanto
animais. O Sol ainda gira em torno da Terra.
As
condições físicas e ambientais promoviam mutações que modificavam
o material genético transmitido na reprodução dos seres. Apenas
as modificações que os tornavam mais aptos às adversidades do
meio eram fixadas e transmitidas para outras gerações, enquanto
as alterações que em nada contribuíam para o aprimoramento das
espécies tendiam a desaparecer.
Charles
Darwin, em sua obra "A origem das espécies", publicada em 1859,
demonstrou essa tendência dos animais a se afastarem de sua origem
ancestral por mutação genética e seleção natural, formando novas
espécies com características diferentes. Com algumas inovações,
introduzidas pelos avanços da Ciência, a teoria de Charles Darwin é ainda
a que melhor explica a biodiversidade de nosso planeta. Não há na
Terra um ser vivo pronto e perfeito. Tudo está em evolução.
Infelizmente,
mesmo diante de todos esses conhecimentos revelados pela Ciência,
vem à governadora do Estado do Rio de Janeiro pela contra-mão
da evolução, ao declarar, em recente entrevista ao GLOBO, seu
pensamento criacionista a respeito do assunto: "Não acredito
na evolução das espécies. Tudo isso é teoria".
É lamentável
saber, após 145 anos da publicação da obra de Darwin, que os
alunos das escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro estão
aprendendo nas aulas de religião que o homem foi criado do barro
e a mulher da costela de Adão! A bem da verdade, isso soa como
se estivessem ensinando às nossas crianças e jovens que "o Sol
gira em torno da Terra", em pleno século XXI!
O
pior de tudo é que nessas aulas de religião, com professores
pagos com verbas públicas, no fundo, com o meu e o seu dinheiro,
ensinam-se conceitos retrógrados baseados em uma crença religiosa
disfarçada de argumento científico. O respeito aos Textos Sagrados
não pode obrigar a Ciência a se calar. Tendo esta por missão
descobrir as leis da Natureza, e sendo essas leis obra de Deus,
jamais elas serão contrárias às religiões que se baseiem na verdade.
Texto
publicado na coluna "Opinião" do Jornal O
Globo, do dia 04 de julho de 2004
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