Manifestações
físicas
Lemos o que se
segue, em le Spiritualiste de Ia Nouvelle-Orléans, do mês
de fevereiro de 1857:
- "Recentemente, nos perguntamos se todos os Espíritos,
indistintamente, fazem mover as mesas, produzem ruídos, etc.,
e logo a mão de uma dama, muito séria para brincar
com essas coisas, traça, violentamente estas palavras:
- "Quem faz os macacos dançarem em vossas ruas? São
os homens superiores?"
"
Um amigo, espanhol de nascimento, que era espiritualista, e que morreu
no verão passado, nos deu diversas comunicações;
numa delas, acha-se esta passagem:
"
As manifestações que procurais não estão
entre aquelas que agradam mais aos Espíritos sérios e
elevados. Confessamos, todavia, que elas têm sua utilidade,
porque, mais que nenhuma outra, talvez, elas podem servir para
convencer
os homens de hoje.
"
Para obter essas manifestações, é preciso,
necessariamente, que se desenvolvam certos médiuns, cuja constituição
física esteja em harmonia com os Espíritos que podem
produzi-las. Ninguém duvida que não os vereis, mais tarde,
se desenvolverem entre vós; e, então, não serão
mais pequenos golpes que ouvireis, mas, ruídos semelhantes a
um fogo circulante de fuzilaria entremeado de tiros de canhão.
"
Em uma parte recuada da cidade, se acha uma casa habitada por
uma família alemã; aí se ouvem ruídos estranhos,
ao mesmo tempo certos objetos são deslocados; pelo menos, nos
asseguram, porque não o verificamos; mas, pensando que o chefe
dessa família poderia nos ser útil, convidamo-lo a algumas
sessões que têm por objetivo esse gênero de manifestações,
e, mais tarde, a mulher desse bravo homem não quis que continuasse
a ser dos nossos, porque, nos disse esse último, o barulho aumentou
entre eles. A esse propósito, eis o que nos foi escrito pela
mão da Senhora.......
"
Não podemos impedir os Espíritos imperfeitos de fazerem
barulho, ou outras coisas aborrecidas e mesmo apavorantes; mas o fato
de estarem em relação conosco, que somos bem intencionados,
não pode senão diminuir a influência que exercem
sobre o médium em questão."
Faremos notar a concordância perfeita que existe entre o que
os Espíritos disseram em Nova Orleans, com respeito à fonte
das manifestações físicas, e o que foi dito a
nós mesmos. Nada poderia, com efeito, pintar essa origem
com mais energia do que esta resposta, ao mesmo tempo, tão
espiritual e tão profunda: "quem faz dançar os macacos
nas nossas ruas? São os homens superiores?"
Teremos ocasião de narrar, segundo os jornais da América,
numerosos exemplos dessas espécies de manifestações,
bem mais extraordinárias do que aquelas que acabamos de citar.
Responder-nos-ão, sem dúvida, com este provérbio:
tem belo mentir que vem de longe. Quando coisas tão maravilhosas
nos chegam de duas mil léguas, e quando não se pode verificá-las,
concebe-se a dúvida; mas esses fenômenos atravessaram
os mares com o senhor Home, que dele nos deu amostras. É verdade
que o senhor Home não se colocou num teatro para operar seus
prodígios, e que todo o mundo, pagando um preço de entrada,
não pôde vê-los; por isso, muitas pessoas o tratam
de hábil prestidigitador, sem refletir que a elite da sociedade,
que foi testemunha desses fenômenos, não se prestaria,
benevolentemente, a lhes servir de parceiro. Se o senhor Home tivesse
sido um charlatão, não estaria precavido em recusar
as ofertas brilhantes de muitos estabelecimentos públicos,
e teria recolhido o ouro a mãos cheias. Seu desinteresse é a
resposta, a mais peremptória, que se possa dar aos seus
detratores. Um charlatanismo desinteressado seria sem sentido e
uma monstruosidade. Falaremos, mais tarde e com mais detalhes,
do
senhor Home e da missão que o levou à França.
Eis, à espera disso, um fato de manifestação espontânea
que distinto médico, digno de toda confiança, nos
relatou, e que é tão mais autêntico quanto as coisas
se passaram entre seus conhecidos pessoais.
Uma família respeitável tinha por empregada doméstica
uma jovem órfã de catorze anos, cuja bondade natural
e a doçura de caráter lhe haviam granjeado a afeição
dos seus senhores. No mesmo quarteirão, habitava uma outra
família cuja mulher tinha, não se sabe porque, tomado
essa jovem em antipatia, de tal modo que supunha espécie
de mau proceder, do qual ela não fora causa. Um dia, quando
voltava, a vizinha saiu furiosa, armada de uma vassoura, e quis atingi-la.
Assustada, ela se precipita contra a porta, quer tocar, infelizmente
o cordão se encontra cortado, e ela não pode alcançá-lo;
mas, eis que a campainha se agita por si mesma, e se lhe vem abrir.
Em sua perturbação, ela não se inteirou do que
havia se passado; mas, desde então, a campainha continuou a
tocar, de tempo em tempo, sem motivo conhecido, tanto de dia quanto à noite,
e quando se ia ver à porta, não se encontrava ninguém.
Os vizinhos do quarteirão foram acusados de pregar essa
má peça; foi dada queixa perante o comissário
de polícia, que fez uma investigação, procurou
se algum cordão secreto comunicava fora, e não pôde
nada descobrir; entretanto, a coisa persistia, cada vez mais, em
detrimento do repouso de todo o mundo, e, sobretudo, da pequena
pagem, acusada
de ser a causa desse barulho. Segundo o conselho que lhes foi dado,
os senhores da jovem decidiram afastá-la deles, e a colocaram
com amigos no campo. Desde então, a campainha permaneceu tranqüila,
e nada de semelhante se produziu no novo domicílio da órfã.
Esse fato, como muitos outros que vamos relatar, não se
passou nas margens do Missouri ou do Ohio, mas, em Paris, Passagem
dos Panoramas. Resta, agora, explicá-lo. A jovem não
tocou a campainha, isso é positivo; ela estava muito terrificada com
o que se passara para pensar em uma travessura da qual fora a primeira
vítima.
Uma coisa não menos positiva, era que a agitação
da campainha se devia à sua presença, uma vez que
o efeito cessou quando ela partiu. O médico, que testemunhou
o fato, explica-o por uma possante ação magnética,
exercida pela jovem, inconscientemente. Essa razão não
nos parece concludente, pois, por que teria ela perdido essa força
depois da sua partida? A isso, disse que o terror inspirado pela presença
da vizinha deveu produzir, na jovem, uma superexcitação
de maneira a desenvolver a ação magnética,
e que o efeito cessou com a causa. Confessamos não estar
convencidos com esse raciocínio. Se a intervenção de uma força
oculta não está aqui demonstrada de maneira peremptória, é ao
menos provável, segundo os fatos análogos que conhecemos.
Admitindo, pois, essa intervenção, diremos que, na circunstância
em que o fato se produziu na primeira vez, um Espírito protetor,
provavelmente, quis que a jovem escapasse do perigo que corria; que,
malgrado a afeição que seus senhores tinham por ela,
talvez, era do seu interesse que ela saísse daquela casa,
eis porque o ruído continuou até que tivesse partido.
(REVISTA ESPÍRITA, JANEIRO DE 1858.