O mês de Abril
possui uma data importante para os brasileiros: no dia 21 comemora-se
o dia do alferes Xavier - o Tiradentes. Um nome que se destaca
dentre muitos outros na história nacional. É este o ponto que
pretendemos analisar com o leitor.
Será que a
história do Brasil é feita apenas de nomes, heróis e mártires,
datas e mitos discutíveis? Será que a história brasileira é uma
história sem povo? Certamente, não. As inúmeras rebeliões e movimentos
populares ao longo do tempo o demonstram. O problema é que a
versão oficial da História, é a versão dos vencedores, dos donos
do poder. Alguma vez você já se perguntou sobre a Guerra do Paraguai,
na visão dos paraguaios vencidos? A "Inconfidência Mineira" é apenas
um desses episódios mitificados. Os "Autos da Devassa", - documento
básico para a maioria dos estudiosos, foi escrito pelos representantes
da Corte portuguesa, nos termos e interpretação dados pelas autoridades
da época. Portanto, não se pode afirmar que é um documento indiscutível.
A conspiração
ocorrida em Minas na década de 1780, com seu ponto máximo em
Maio de 1789, foi um episódio de largo alcance. Muita gente de
várias capitanias da Colônia se envolveu na trama. Havia a promessa
de apoio político dos EUA, recém-libertados da Inglaterra, e
militar da França. O número de envolvidos era enorme. Os Autos
da Devassa registraram 84 pessoas tidas como principais responsáveis.
O governador
da capitania mineira, naqueles tempos, recebia um sem-número
de cartas anônimas falando da rebelião, preparada para o dia
da "Derrama", - cobrança compulsória de impostos atrasados. Ele
só deu crédito a algumas, especialmente à de Silvério dos Reis,
datada e assinada em Março de 1789, dando nomes e detalhes da
conspiração.
Com isso, suspendeu
a Derrama e começou a desmontar a trama. Expediu ordens de prisão
para toda a região e comunicou a outros governadores e à Corte
portuguesa. Em Maio de 1789 efetivaram-se dezenas de prisões.
Seguiram-se interrogatórios, depoimentos, torturas, defecções,
mortes, assassinatos, exílios etc. Foram três anos de processo
terríveis para os indiciados.
E o alferes
Xavier - o Tiradentes? Foi preso também, pois falava por toda
parte sobre a rebelião. Na prisão, no início do processo, cumpriu
o acordo de negar tudo. Afinal, percebendo que a ira da Corte
só se aplacaria com sangue, atraiu para si toda a culpa e responsabilidade,
passando-se por líder único da conspiração. Está aí o mérito
do alferes: sua coragem e inteligência, em perceber que muitos
mais morreriam se a Corte não tivesse seu bode expiatório. O
resto da história o leitor já conhece.
Mas, é importante
que os formadores de opinião, especialmente professores e meios
de comunicação, procurem interpretar a realidade dos fatos históricos,
que não são consumados exclusivamente por pessoas isoladamente,
mesmo que excepcionalmente carismáticas, mas também pelo povo
que - em última instância - é que dá seu sangue pelos grandes
ideais.
Muitas das
injustiças sociais e desarranjos políticos e econômicos dos tempos
da Inconfidência perduram até hoje no Brasil. Os governantes
se sucedem dentro do mesmo caldo de cultura estabelecido nos
tempos da Colônia, e que excluía o povo das principais e mais
importantes decisões nacionais. Acostumamo-nos a esperar que
os que exercem o transitório poder terreno decidam sobre nosso
futuro, de forma apática e conformada, como se nada se pudesse
fazer para mudar o rumo das coisas. Ainda acreditamos que a história
nacional se faz sem a presença popular; uma história sem povo,
o que não é verdade.
Cidadania é a
consciência dos direitos e deveres que temos perante a sociedade
que nos recebe pelo período da reencarnação e mesmo quando desencarnados,
já que formamos grandes grupos-nações, grandes famílias nacionais
irmanadas por características que perduram por séculos.
A comunidade
espírita, por exemplo, é uma comunidade menor inserida numa comunidade
maior, com responsabilidades enquanto comunidade. E os espíritas,
quem são? São Espíritos reencarnados, oriundos de várias partes
e culturas e que, por agora e talvez por algum tempo, ligam-se
aos ensinos espíritas com a finalidade de aperfeiçoamento pessoal
e auxílio no desenvolvimento social. A terceira parte de O Livro
dos Espíritos (Leis Morais) contém uma síntese do entendimento
espírita acerca das questões sociais, econômicas e políticas
do homem na Terra.
Uma leitura,
mesmo ligeira dessa parte de O Livro dos Espíritos, demonstra
que temos responsabilidades sociais e que o individualismo levado
ao extremo dentro de uma interpretação equivocada da "reforma íntima" é um
erro grave que nos isola do conjunto social. O movimento espírita
padece desse isolamento que pode ser constatado pela escassa
participação dos espíritas nas grandes questões nacionais. Votam
por obrigação e esquecem o resto e as conseqüências.
O sacrifício
dos "inconfidentes" e de tantos outros que ainda hoje como em
outros tempos se sacrificaram pela criação de um país mais justo,
permanecerá como esperança remota, até que todos - espíritas
ou não - se envolvam mais com as questões de alcance geral, para
impedir que leis que atendem a interesses particulares ou de
grupos, que a vontade pessoal de um ou outro representante do
povo prevaleça sobre as reais necessidades da nação.
A omissão eqüivale
a conivência e em certas circunstâncias pode ganhar os contornos
de cumplicidade. Uma cumplicidade que compromete a saúde social
e de cada membro. O Brasil permanece rico e injusto como há séculos.
Sobra fome e falta(?) terra num país de dimensões continentais.
Até quando?
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