Neste artigo
analisaremos Nota aos Prolegômenos da segunda
edição francesa de Le Livre des Esprits (ver resenha
em Mundo Espírita, ... de ..., pp. ...). Tal nota foi
depois retirada, aparentemente sem justificação
explícita, a partir da 10a edição, de 1863.
A análise será feita em confronto com a nota semelhante
que existia na primeira edição, de 1857.
Forneceremos,
inicialmente, as traduções dos textos das duas
versões da nota, reproduzindo no final do artigo os originais
franceses, para conferência.
Nota. Os
princípios contidos neste livro resultam, seja das respostas
dadas pelos espíritos às questões diretas
que lhes foram propostas, seja das instruções que
espontaneamente deram acerca dos assuntos que ele abrange. O
material foi organizado de maneira a formar um conjunto regular
e metódico, e só foi entregue ao público
depois de ter sido cuidadosamente revisto várias vezes,
e corrigido pelos próprios espíritos.
A primeira
coluna contém as questões propostas, seguidas das
respostas textuais. A segunda encerra o enunciado da doutrina
em forma corrida. São, na verdade, duas redações,
em formas diferentes, acerca de um mesmo assunto: uma tem a vantagem
de apresentar como que a fisionomia dos diálogos com os
espíritos; a outra, a de permitir uma leitura seguida.
Se bem que
o assunto tratado em cada coluna seja o mesmo, freqüentemente
elas encerram, tanto uma como a outra, pensamentos especiais
que, quando não são o resultado de questões
diretas, nem por isso deixam de ser o fruto das instruções
dadas pelos espíritos, pois nenhum pensamento há no
livro que não seja a expressão do deles.
Nota. Os
princípios contidos neste livro resultam, seja das respostas
dadas pelos Espíritos às questões diretas
que lhes foram propostas em diversas ocasiões e por meio
de um grande número de médiuns, seja das instruções
que espontaneamente deram a nós ou a outras pessoas, acerca
dos assuntos que ele abrange. O material foi organizado de maneira
a formar um conjunto regular e metódico, e só foi
entregue ao público depois de ter sido cuidadosamente
revisto várias vezes, e corrigido pelos próprios
Espíritos. Também esta segunda edição
foi objeto de novo e minucioso exame da parte deles.
O que vem entre
aspas, após as questões, são as respostas
textuais dadas pelos Espíritos. O que está em caracteres
menores, ou de outro modo destacado, consiste das observações
ou desdobramentos acrescentados pelo Autor, que passaram igualmente
pelo controle dos Espíritos.
Observemos,
inicialmente, o detalhe da grafia da palavra espírito:
na segunda edição passou a ser com inicial maiúscula.
Na língua francesa o uso de iniciais maiúsculas é mais
restrito do que em português, e no presente caso não
se justificaria senão pela intenção de Kardec
de diferençar as individualidades dos seres extracorpóreos Espíritos do elemento
inteligente universal espírito , conforme
adverte explicitamente a nota após o item 76 da segunda
edição. Essa importante distinção,
não assinalada na primeira edição, é rigorosamente
marcada por esse recurso ao longo de toda a edição
de 1860. Temos aqui um belo exemplo da preocupação
de Kardec com as nuances de pensamento e sua correta expressão
escrita.
Outro ponto
diz respeito à forma de apresentação do
texto. Por interessantes que fossem as razões apontadas
por Kardec na nota de 1857 para apresentar o assunto em dois
formatos, diálogo e texto corrido, avaliou depois que
seriam secundárias, relativamente a outras, entre as quais
certamente se incluem a uniformização e a concisão.
Na primeira edição a exposição dupla
era usada unicamente na primeira das três partes que formavam
o livro. Ademais, é evidente que esse formato duplica
a extensão total do texto; se fosse seguido em todo o
livro, e ainda mais com as grandes complementações
da segunda edição, resultaria em um volume de dimensões
impraticáveis. Prevaleceu aqui o senso estético
e prático de Kardec, tão evidente na composição
de suas obras.
Uma terceira
observação refere-se ao cuidado que Kardec teve
de submeter o texto, em suas duas edições, a acuradas
verificações pelos Espíritos. Não
que isso indicasse qualquer limitação de sua imensa
capacidade analítica e independência intelectual;
mas, dado que a obra explora um território quase que inteiramente
novo, eram-lhe indispensáveis as informações
colhidas dos Espíritos testemunhas e participantes
diretos da realidade espiritual, cuja investigação
constitui o cerne da nova disciplina. Fazia-se, pois, mister,
não assimilar relatos que se baseassem em observações
parciais, sendo por isso que o controle amplo das informações
se mostrou indispensável.
A referência
explícita, na nota da segunda edição que,
lembramos, deixou de ser impressa a partir da 10a edição ,
a esse controle mostra quão infundada é a posição
de Canuto Abreu, expressa na introdução de sua
edição bilíngüe da primeira edição
do Livro dos Espíritos, de desqualificação
relativa da segunda edição, por conta de um suposto
menor controle por parte dos Espíritos. (Para um exame
crítico mais extenso dessa posição, veja-se
a obra Allan Kardec, de Francisco Thiesen e Zêus Wantuil,
vol. 2, cap. 1, seção 11.)
A comparação
das duas versões da Nota revela outros aspectos importantes talvez
mais importantes ainda relativos à elaboração
do livro e, em particular, ao papel desempenhado por Kardec.
Vemos que os dois primeiros períodos dos primeiros parágrafos
das notas correspondem-se quase que integralmente: a diferença
está no acréscimo, no meio do primeiro período,
da frase em diversas ocasiões e por meio de um grande
número de médiuns, e depois a nós
ou a outras pessoas. Deve-se comparar essas afirmações
gerais com a descrição específica, feita
por Kardec em outros lugares, do modo de elaboração
do texto de O Livro dos Espíritos. No primeiro número
da Revue Spirite (janeiro de 1858) há uma matéria
sobre o livro. Após advertir que, por sua lentidão,
a tiptologia nunca foi por ele empregada nos trabalhos referentes
ao livro, Kardec diz: tudo foi obtido pela escrita e por
intermédio de vários (plusieurs) médiuns
psicógrafos. Nós mesmos preparamos as questões
e organizamos o conjunto da obra; as respostas são textualmente
as que foram dadas pelos Espíritos; a maior parte foi
escrita sob nossos olhos. Outras foram extraídas de comunicações
enviadas por correspondentes, ou que coletamos onde quer que
tenhamos tido a ocasião de realizar estudos. No
parágrafo seguinte Kardec acrescenta: Os primeiros
médiuns que ajudaram em nosso trabalho foram as senhoritas
B*** [Baudin], cuja boa vontade jamais faltou: o livro foi escrito
quase que inteiramente por meio delas... (os itálico
são nossos).
Na seção
inicial da segunda parte de Obras Póstumas, Kardec comenta
que quando o trabalho alcançou as dimensões de
um livro pensou em submetê-lo ao exame de outros
Espíritos, com o auxílio de diferentes médiuns.
No entanto, ao começar a fazer isso, levando os pontos às
reuniões do senhor Roustan, nas quais atuava a médium
sonâmbula senhorita Japhet, os próprios Espíritos
disseram que preferiam empreender a delicada revisão em
seções privativas com a médium, isto é,
sem assistência. No referido artigo da Revue, Kardec afirma,
a propósito da revisão, que essa parte essencial
do trabalho foi feita com o concurso da senhorita Japhet,
ressaltando sua nobreza de caráter e infatigável
dedicação à tarefa.
Aquela seção
de Obras Póstumas contém ainda outras informações
relevantes para o assunto de que estamos tratando. Uma delas é que
as senhoritas Baudin se casaram já no final de 1857 e
que, em conseqüência, as reuniões na casa do
senhor Baudin cessaram. Mais importante do que isso é o
que lemos um pouco antes: Não me contentei, entretanto,
com essa verificação [pela senhorita Japhet]; os
Espíritos assim mo haviam recomendado. Tendo-me as circunstâncias
posto em relação com outros médiuns, sempre
que se apresentava a ocasião eu a aproveitava para propor
algumas das questões que me pareciam as mais espinhosas.
Foi assim que mais de dez médiuns prestaram concurso a
esse trabalho. Da comparação e da fusão
de todas as respostas, coordenadas [coordonnées], classificadas
e muitas vezes remodeladas [remaniées] no silêncio
da meditação, foi que elaborei a primeira edição
de O Livro dos Espíritos... (os destaques são
nossos).
Todas essas
passagens, bem como os textos integrais dos quais foram extraídas,
ressaltam, primeiro, que o Livro dos Espíritos não
surgiu, como às vezes ingenuamente se assume, de uma grande
massa de respostas vindas de inumeráveis pontos. Embora,
como Kardec assinala, ele tenha aproveitado algumas comunicações
que lhe foram enviadas, o grosso do livro, em sua primeira edição,
foi fruto de um trabalho sistemático concebido por ele
e desenvolvido com a ajuda mediúnica das duas irmãs
Baudin, e depois da senhorita Japhet, para a revisão.
Somente quanto a alguns pontos mais delicados é que julgou
prudente conferir as opiniões com o auxílio de
outros poucos médiuns.
Afora as declarações
específicas de Kardec, as circunstâncias históricas
também indicam a necessidade de não se tomar à letra
a frase da Nota aos Prolegômenos da segunda edição
que motivou estes comentários. Por mais extensas que se
tenham tornado as relações de Kardec, como resultado
da publicação de seus livros e, especialmente,
da Revue, está claro que na curta fase de elaboração
do Livro dos Espíritos, em sua primeira e, talvez, segunda
edição, simplesmente não havia uma extensa
rede de colaboradores, e muito menos de colaboradores perfeitamente
sintonizados com um projeto de tal complexidade.
Em segundo
lugar, as citações que fizemos mostram que é igualmente
ingênuo assumir que a contribuição pessoal
de Kardec se limitou a compilar a suposta massa de respostas,
organizando-a em forma de livro. A denominação
comum de codificador parece embutir, ou ao menos
favorecer essa interpretação insustentável;
deveria, pois, ser evitada (e não só por tal motivo).
O estudo atento das declarações de Kardec sobre
seu papel e, sobretudo, a reflexão madura sobre o conjunto
de sua produção, não deixa dúvida
quanto à centralidade de sua contribuição
no estabelecimento das bases do Espiritismo. Ela não se
limitou nem mesmo à reescrita de parte das respostas,
a que ele explicitamente alude, e que se torna evidente pelo
confronto do material da Revue com o texto da segunda edição.
A concepção e condução de todo o
programa de pesquisa espírita, em seus múltiplos
desdobramentos, bem como a lucidez e precisão superiores
de seus próprios textos, indicam de forma inconteste que
Kardec não foi mero auxiliar dos Espíritos exceção
feita, é claro, ao Cristo, coordenador geral dos destinos
da humanidade terrena , mas, ao contrário, estes é que
eram seus auxiliares; eles mesmos, aliás, reconheceram
esse papel em diversas ocasiões. Justifica-se, pois, a
asserção de Francisco Thiesen, de que Kardec foi
o co-autor do Livro dos Espíritos (Allan Kardec,
vol. 2, p. 85); mas talvez possamos mesmo ir um pouco além
disso. (Sobre a envergadura da contribuição de
Kardec, ver nosso artigo Por que Allan Kardec?, citado
na lista de referências, no final.)
Diante disso
tudo, não parece inteiramente improvável que a
nota aos Prolegômenos tenha sido mais tarde retirada não
por mero lapso editorial, mas por potencialmente favorecer interpretações
incorretas. Ademais, o que ela tem de essencial já é dito
em termos adequados nos próprios Prolegômenos e
na nota de rodapé do item 1 do próprio livro.
Apêndice:
Originais franceses das notas.
[1a ed.] Nota. Les
principes contenus dans ce livre résultent, soi des réponses
faites par les esprits aux questions directes qui leur ont été proposées,
soi des instructions données par eux spontanément
sur les matières quil renferme. Le tout a été coordonné de
manière à présenter un ensemble régulier
et méthodique, et na été livré à la
publicité quaprès avoir été soigneusement
revu à plusieurs reprises et corrigé par les esprits
eux-mêmes.
La première
colonne contient les questions proposées suivies des réponses
textuelles. La seconde renferme lénoncé de
la doctrine sous une forme courante. Ce sont à proprement
parler deux rédactions sur un même sujet sous deux
formes differentes: lune a lavantage de présenter
en quelque sorte la physionomie des entretiens spirites, lautre
de permetre une lecture suivie.
Bien que le
sujet traité dans chaque colonne soit le même, elles
renferment souvent lune et lautre des pensées
spécialles qui, lorsquelles ne sont pas le résultat
de questions directes, nen sont pas moins le produit des
instructions données par les esprits, car il nen
est aucune qui ne soit lexpression de leur pensée.
[2a ed.] Nota. Les
principes contenus dans ce livre résultent, soi des réponses
faites par les Esprits aux questions directes qui leur ont été proposées à diverses époques
et par lentremise dun grand nombre de médiums,
soi des instructions données par eux spontanément à nous
ou à dautres personnes sur les matières quil
renferme. Le tout a été coordonné de manière à présenter
un ensemble régulier et méthodique, et na été livré à la
publicité quaprès avoir été soigneusement
revu à plusieurs reprises et corrigé par les Esprits
eux-mêmes. Cette seconde édition a pareillement été de
leur part lobjet dun nouvel et minutieux examen.
Ce qui est
entre guillemets à la suite des questions est la réponse
textuelle donnée par les Esprits. Ce qui est marqué par
un autre caractère, ou désigné dune
manière spéciale à cet effet, comprend les
remarques ou developpments ajoutés par lauteur,
et qui ont également subi le contrôle des Esprits.
Referências:
CHIBENI, S. S. Por que Allan Kardec? Reformador, abril 1986,
p. 102-3. (Também disponível no site do Grupo de Estudos
Espíritas da Unicamp: http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482
.)
KARDEC, A. Le Livre des Esprits.Reprodução fotomecânica
da 2a ed. francesa, com adendos do Autor. 1a. ed., Rio, Federação
Espírita Brasileira, 1998.
. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica
da 1a ed. francesa. 1a ed, bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São
Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.
. Revue Spirite. Texto eletrônico, Centre d'Études
Spirites Léon Denis: http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/
. Oeuvres Posthumes. (Ed. André Dumas.) Paris,
Dervy-Livres, 1978. Também na edição original de Leymarie,
em texto eletrônico, Centre d'Études Spirites Léon Denis:
http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/
. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 18a ed.,
Rio, Federação Espírita Brasileira, 1944.
WANTUIL, Z. & THIESEN, F. Allan Kardec, 3 vols. 1a ed., Rio, Federação
Espírita Brasileira, 1979/80.
(Texto publicado em Mundo Espírita, julho/2002, pp. 6-7.)
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