Em função de
nossos posicionamentos críticos (do grego kritiké: análise, apreciação),
somos freqüentemente acusado de intolerância e prática excludente.
Porém, nenhum de nossos pronunciamentos jamais é realizado sem
o devido respeito à identidade conceitual do espiritismo, sempre
com superlativa importância dada à obra de Kardec, o qual fazemos
questão de citar, em referendo a toda idéia que damos a lume.
Ante
essas acusações, o que pensarmos? Que muitos espíritas não conhecem
obra do mestre de Lyon e, assim, se equivocam em seus julgamentos;
ou, então, que não fazem caso do que disseram ou deixaram de
dizer o codificador e seus excelsos orientadores espirituais.
Um erro dos mais lamentáveis é confundirmos o discurso viril
de paz, amor e tolerância, próprio do corajoso exercício da verdadeira
Boa Nova, com esse simplismo comprometedor, do qual Jesus, aliás,
nunca foi partidário, que vive a dizer tão comodamente: “Vamos
deixar de fofoquinhas, crianças! Vamos amar o próximo!”.
Não
seremos nós os que se oporão à necessidade de amarmo-nos. Todavia,
no que concerne a nossa atitude de repúdio ao roustainguismo,
ao ramatisismo, ao laicismo e a outros focos de evidente mistificação,
que grassam em nosso movimento espírita sob a complacência ingênua
de uns e interesseira de outros, insistimos em que é a exemplo
de Kardec que a tomamos, e em nome do próprio Espírito de Verdade,
o qual disse também: “Instruí-vos!”.
Contudo,
salientemos que nosso repúdio é às falsas doutrinas, não a seus
profitentes, que consideramos nossos irmãos e a quem amamos,
embora a recíproca nem sempre tenha sido verdadeira, o que prova
a fonte malsã de tais proposituras. Citado nominalmente, já fomos
tachado de irresponsável, antiético e mesmo agredido em nossa
juventude, como se fosse desdouro não contar ainda, pelo menos,
cinqüenta anos... Pobre de nós, que mal passamos dos trinta!
São traços, não há dúvida, de um patriarcalismo completamente
arcaico.
Seguro,
entretanto, de nossa atitude, estamos, como dizíamos, ao lado
do próprio codificador, que instruiu os verdadeiros adeptos do
espiritismo da seguinte forma:
Falar
dessas opiniões divergentes que, em definitivo, se reduzem a
algumas individualidades, e não fazem corpo em nenhuma parte,
não é, talvez dirão algumas pessoas, dar-lhes muita importância,
amedrontar os adeptos em lhes fazendo crer em cisões mais profundas
do que elas o são? Não é também fornecer armas aos inimigos do
espiritismo? É precisamente para prevenir esses inconvenientes
que delas falamos. Uma explicação clara e categórica, que reduz
a questão ao seu justo valor, é muito mais própria para tranqüilizar
do que para amedrontar os adeptos; eles sabem a que se prenderem,
e nisto encontram ocasião dos argumentos para a réplica. Quanto
aos adversários, eles muitas vezes exploram o fato, e é porque
lhe exageram a importância, que é útil mostrar o que ele é. (Revista
Espírita. Abril de 1866. O espiritismo independente. Tomo IX.
1. ed. p. 116. Araras: IDE, 1997.)
A
nossa postura é, então, a do próprio codificador do espiritismo;
e nunca tão necessária foi, pois assumida numa época em que existe
o agravante de essas opiniões divergentes da codificação não
mais se reduzirem a algumas individualidades. Efetivamente, elas
fazem corpo e ameaçam-nos a integridade conceitual, aumentando
a distância entre o espiritismo — a obra de Kardec e o que a
essa obra de fato se possa articular — e aquilo que o movimento
espírita vem professando em geral.
Estamos
acuados por um institucionalismo igrejificante, muito centralizador,
que cerceia o pleno exercício da capacidade crítica, elemento
fundamental à proposta de uma fé realmente raciocinada. Por isso,
muitos espíritas não chegam a desposar com a coragem que se esperaria
os fundamentos doutrinais kardecianos. Apenas para não desagradarem
a “a”, “b” ou “c”. Mas esquecem de que, para contemplarmos a
Divindade, teremos de ser capazes de reconhecer sua dupla face:
o Amor, sem dúvida; mas também, inapelavelmente, a Verdade.
Mestre
e doutora em Educação pela USP, com dissertação e tese espíritas
proclamadas em alto e bom som em pleno meio acadêmico — coragem
que poucos têm! —, citemos aqui a ilustre confreira Prof.ª Dora
Incontri, para que nos convençamos de que criticar não é fundamentalmente
um vício, e sim uma virtude:
A
capacidade crítica é o preventivo contra a dominação mental de
outras inteligências, encarnadas ou desencarnadas. É o discernimento
justo para avaliarmos o bem e o mal e percebermos o que se esconde
por trás das aparências. É a disposição de questionarmos pessoas
e situações, sem medo de enxergarmos a verdade, pois por trás
da descoberta e da justa avaliação de um problema, vem necessariamente
o compromisso de nos engajarmos até o sacrifício para saná-lo.
Assim, o espírito crítico, em relação a nós mesmos, a pessoas à nossa
volta, a circunstâncias sociopolíticas, a respeito de formas
de relacionamentos humanos ou de instituições e poderes constituídos é um
desestabilizador do comodismo egoísta. (A educação segundo o
espiritismo. Cap. XVII. A educação intelectual. Potencialidades
a serem desenvolvidas. O espírito crítico e a autonomia de pensamento.
4. ed. p. 171-172. São Paulo: Comenius, 2000.)
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