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Deus está em toda a parte PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administração   
Seg, 21 de Fevereiro de 2011 15:12

Texto de Allan Kardec, contido na REVISTA ESPÍRITA (EDICEL) de maio de 1866, página 129.

Como é que Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo pode imiscuir-se em detalhes ínfimos, preocupar-se com os menores atos e os menores pensamentos de cada indivíduo? Tal é a pergunta feita muitas vezes.

Em seu estado atual de inferioridade, só dificilmente os homens podem compreender Deus infinito, porque eles próprios são circunscritos, limitados e por isto o configuram circunscrito e limitado, como eles mesmos; representando-o como um ser circunscrito, dele fazem uma imagem à sua imagem. Nossos quadros que o pintam com traços humanos não contribuem pouco para alimentar este erro no espírito das massas, que nele mais adoram a forma que o pensamento. É para o maior número um soberano poderoso sobre um trono inacessível, perdido na imensidade dos céus, e porque suas faculdades e suas percepções são restritas, não compreendem que Deus possa ou se digne intervir diretamente nas menores coisas.

Na impotência em que se acha o homem de compreender a essência mesma da divindade, não pode fazer senão uma idéia aproximada, auxiliado por comparações necessariamente muito imperfeitas, mas que, ao menos, lhe podem mostrar a possibilidade do que, à primeira vista, lhe parece impossível.

Suponhamos um fluído bastante sutil para penetrar todos os corpos. É evidente que cada molécula desse fluído produzirá sobre cada molécula da matéria com a qual está em contato uma ação idêntica à que produziria a totalidade do fluído. É o que a química nos mostra a cada passo.

Sendo ininteligente, esse fluído age mecanicamente pelas sós forças materiais. Mas se supusermos esse fluído dotado de inteligência, de facilidades perceptivas e sensitivas, ele agirá, não mais cegamente, mas com discernimento, com vontade e liberdade; verá, ouvirá e sentirá.

As propriedades do fluído perispiritual dele nos podem dar uma idéia. Ele não é inteligente por si mesmo, desde que é matéria, mas é o veículo do pensamento, das sensações e das percepções do espírito; é em conseqüência da sutileza desse fluído que os Espíritos penetram por toda a parte, perscrutam os nossos pensamentos, vêem e agem à distância; é a esse fluído, chegado a um certo grau de depuração, que os Espíritos superiores devem o dom da ubiqüidade; basta um raro de seu pensamento dirigido para diversos pontos, para que eles possam aí manifestar sua presença simultânea. A extensão dessa faculdade está subordinada ao grau de elevação e de depuração do Espírito.

Mas os Espíritas, por mais elevados que sejam, são criaturas limitadas em suas faculdades, poder e a extensão de suas percepções não poderiam, neste caso, se aproximar de Deus. Contudo podem servir de ponto de comparação. O que o Espírito não pode realizar senão num limite restrito, Deus, que é infinito o realiza em proporções indefinidas. Há ainda esta diferença que a ação do Espírito é momentânea e subordinada às circunstâncias: a de Deus é permanente; o pensamento do Espírito só abarca um tempo e um espaço circunscritos: o de Deus abarca o universo e a eternidade. Numa palavra, entre os Espíritos e Deus há a distância do finito ao infinito.

O fluído perispiritual não é o pensamento do Espírito, mas o agente e o intermediário desse pensamento. Como é o fluído que o transmite, dele está, sob certo modo, impregnado e, na impossibilidade em que nos achamos de isolar o pensamento, ele parece não fazer senão um com o fluído, assim como o som parece ser um como o ar, de sorte que podemos, por assim dizer, materializá-lo. Do mesmo modo que dizemos que o ar se torna sonoro, poderíamos, tomando o efeito pela causa, dizer que o fluído torna-se inteligente.

Seja ou não seja assim o pensamento de Deus, isto é, que ele aja diretamente ou por intermédio de um fluído, para a facilidade de nossa compreensão representamos este pensamento sob a forma concreta de um fluído inteligente, enchendo o universo infinito, penetrando todas as partes da criação: a natureza inteira está mergulhada no fluido divino; tudo está submetido á sua ação inteligente, à sua previdência, à sua solicitude; nenhum ser, por mais ínfimo que seja, deixa de estar, de certo modo, dele saturado.

Assim, estamos constantemente em presença da divindade; não há uma só de nossas ações que possamos subtrair ao seu olhar; nosso pensamento está em contato com o seu pensamento e é com razão que se diz que Deus lê os nossos mais profundos refolhos do coração: estamos nele como ele em nós, segundo a palavra do Cristo. Para estender sua solicitude às menores criaturas, ele não tem necessidade de mergulhar seu olhar do alto da imensidade, nem de deixar o repouso de sua glória, pois esse repouso está em toda a parte. Para serem ouvidas por ele, nossas preces não necessitam transpor o espaço, nem serem ditas com voz retumbante porque, incessantemente penetrados por ele, nossos pensamentos nele repercutem.

A imagem de um fluído inteligente universal evidentemente não passa de uma comparação, mas própria a dar uma idéia mais justa de Deus que os quadros que o representam sob a figura de um velho de longas barbas, envolto num manto. Não podemos tomar nossos pontos de comparação senão nas coisas que conhecemos; é por isto que dizemos diariamente: o olho de Deus, a mão de Deus, a voz de Deus, o sopro de Deus, a face de Deus. Na infância da humanidade o homem tomou estas comparações ao pé da letra; mais tarde seu espírito, mais apto a apreender as abstrações, espiritualiza as idéias materiais. A de um fluído universal inteligente, penetrando tudo, como seriam o fluído luminoso, o fluído calórico, o fluído elétrico ou quaisquer outros, se fossem inteligentes, tem o objetivo de fazer compreender a possibilidade para Deus de estar em toda parte, de ocupar-se de tudo, de velar pelo broto da herva como pelos mundos. Entre ele e nós a distância foi suprimida; compreendemos e este pensamento, quando a ele nos dirigimos, aumenta a nossa confiança, porque não podemos dizer que Deus esteja muito longe e seja muito grande para se ocupar de nós. Mas este pensamento, tão consolador para o humilde e para o homem de bem, é muito aterrador para o mau e para o orgulhoso endurecidos, que esperavam a ele subtrair-se em favor da distância, e que, de agora em diante, sentir-se-ão sob a influência de seu poder.

Nada impede admitir para o princípio de soberana inteligência, um centro de ação, um foco principal radiando sem cessar, inundando o universo com os seus eflúvios, como o sol com a sua luz. Mas onde está esse foco? É provável que não esteja mais fixo num ponto determinado do que a sua ação. Se simples Espíritos tem o dom da ubiqüidade, essa faculdade com Deus deve ser sem limites. Enchendo Deus o universo, poder-se-ia admitir, a título de hipótese, que esse foco não necessita transportar-se, e que se forme em todos os pontos onde sua soberana vontade julga a propósito produzir-se, de onde se poderia dizer que está em toda a parte e em parte alguma.

Diante desses problemas insondáveis, nossa razão deve humilhar-se; Deus existe: não poderíamos duvidá-lo; é infinitamente justo e bom; é sua essência; sua solicitude se estende a tudo; nós o compreendemos agora; incessantemente em contacto com ele, podemos orar a ele com a certeza de ser ouvidos; ele não pode querer senão o nosso bem; por isso devemos ter confiança nele. Eis o essencial: para o resto, esperemos que sejamos dignos de o compreender.

 

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