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Do nosso preconceito PDF Imprimir E-mail
Escrito por Jayme Lobato   
Seg, 14 de Fevereiro de 2011 14:42

Adélia e Orlando recebem a vista de Norma, antiga companheira das lides espiritistas, que se mudara para bairro distante e, por isso, se transferira para centro espírita próximo à nova residência. Após os devidos cumprimentos, a conversa toma rumo.

– Que alegria te ver, Norma! Embora freqüentemente falemos ao telefone, sinto saudades dos papos em que nos entretínhamos, à saída do centro, quando você ainda morava perto da gente.

– Sinto falta do nosso contato semanal. O ambiente no centro onde estou é muito aconchegante, Adélia. Graças a Deus!... E você, Orlando? Sempre falante, está calado.

– Ele está chateado com um fato ocorrido no centro.

- O de sempre, Norma! As pessoas não querem raciocinar, preferem obedecer cegamente à sua arrogância, ao seu autoritarismo, sem avaliar o quanto estão prejudicando a causa espírita.

– Disso não nos livraremos tão cedo, Orlando. O nosso meio, inexplicavelmente, não conhece as obras básicas do Espiritismo.

– E não vemos, querida irmã, nenhum projeto sério no sentido de uma divulgação maciça e consistente da obra kardequiana. Os estudos programados, na sua maioria, não promovem uma relação de intimidade entre o espírita e as obras do codificador.

– O que observo, com freqüência, no meio, prezado Orlando, é uma tintura de filosofia espírita e muito formalismo religioso extraídos, na maioria das vezes, de entendimento equivocado de conceitos propostos em obras mediúnicas.

– Algumas delas sérias, amiga! Mas, que os companheiros, atendendo aos seus interesses particularistas, procuram dar a interpretação que lhes convém.

– Ainda assistimos, amigos, a casa espírita, nas suas diversas atividades, ser usada como instrumento de expressão de recalques e de preconceitos vários.

– Aí está o aborrecimento do Orlando, Norma. O preconceito!

– Mas, o que está acontecendo naquela casa, que eu tanto admiro e que me socorreu num momento muito difícil de minha vida?!

– Não posso entender, Norma, a arrogância e o preconceito por parte de espíritas.

– Os espíritas, meu amigo, não são perfeitos! Trazemos conosco hábitos e conceitos necessitando de reformulação. Porém, onde a coragem e o desejo de modificar-nos? Onde a coragem para nos despirmos da condição do homem velho e assumirmos a do homem novo, no conceito de Paulo?

– Tenho falado com o Orlando, Norma, que há transformações que só o tempo é capaz de promover.

– Adélia tem razão, Orlando. E, nesse caso, cada um dá do que tem no seu embornal, como diria minha avó.

– Quanto tempo não escuto falar em embornal! Na minha infância, ouvia, amiúde, essa palavra, que designa uma sacola usada a tiracolo, onde se armazena alimento ou ferramenta.

– Minha avó, Orlando, de saudosa memória, sempre afirmava, repetindo a sabedoria popular, que cada um dá do que contém no seu embornal. Ou melhor, damos do que temos!

E Norma se interessa sobre o fato gerador da polêmica:

– Mas, afinal, Orlando, o que o aborreceu tanto?!

– O fato de não se respeitar a condição psico-sóciocultural dos espíritos. Os mais bem colocados social e culturalmente merecem todo tipo de salamaleque.

– Ora, Orlando! Essa história é antiga no nosso meio.

– Mas ela é preconceituosa! Kardec, na Revista Espírita de janeiro de 1866, em se referindo aos condicionamentos da existência física que o Espírito leva consigo, fala que esta influência não se apaga imediatamente após a destruição do invólucro material, assim como o espírito não perde, instantaneamente, os gostos e hábitos terrenos.

– O Orlando ficou triste, Norma, porque o dirigente da reunião mediúnica não aceitou a manifestação de um preto-velho, apesar do conteúdo moralizante de sua fala. Criticou o médium que permitiu a manifestação.

– O dirigente não aceitou a presença do espírito, por preconceito. Kardec fala que devemos avaliar o conteúdo da mensagem. E a do preto-velho tinha conteúdo moralizante, evangélico.

– Mas, essas pessoas, meus amigos, não agiriam da mesma forma com os Espíritos do Dr. Fritz e da Irmã Sheilla, dois valorosos trabalhadores do bem.

– Isso mesmo, Norma! Através de seus médiuns mais credenciados, os dois se expressam num português arrastado, com sotaque alemão. E ninguém diz nada.

– Mas, amigo! Esses espíritos procedem da cultura branca, européia, ariana. Tiveram sua última encarnação na Alemanha. Isso não basta para explicar esse tipo de atitude?!

– Contudo, Norma, devemos entender que não são os Espíritos que criam esse tipo de preconceito – acrescenta Adélia.

– É claro que não, Adélia! Sabemos disso! O verdadeiro Dr. Fritz e a Irmã Sheilla são Benfeitores Espirituais, trabalhadores da seara do Cristo – reafirma Orlando.

– Por decreto dos que se julgam proprietários do Espiritismo, os pretos-velhos e os índios não podem se expressar na condição psico-sócio-cultural que desenvolveram na Terra e, em especial no Brasil. Continuam sofrendo, na Pátria do Evangelho, agora como espíritos, a mesma exclusão sócio-cultural que sofreram quando aqui encarnados!

– Mas o Espiritismo, minha amiga, não veio para diferenciar os Espíritos pelas posições sócios-culturais e sim pelos caracteres morais. Em especial num país, como o nosso, em que a educação é tratada em segundo plano. E onde há descaso para com o social.

– E os que discutem a questão social, no Brasil, não podem mais ser vistos como subversivos. Os organismos internacionais mais conservadores até registram e expõem o descuido de nossas autoridades com o social – observa Adélia.

– Mas, foi disseminada, na coletividade espírita, uma idéia fantasiosa de que tudo está muito bom. Vai tudo muito bem. Está tudo maravilhoso. Graças a Deus, algumas vozes já se colocam contra essa exaltação indevida e gratuita – assevera Orlando.

E Norma volta a se referir ao trabalho do Dr. Fritz:

– A propósito do Dr. Fritz, meu pai conta o caso de um amigo que se beneficiou muito da assistência espiritual dele, através do médium Zé Arigó. E esse senhor tinha o hábito de criticar a forma de expressão dos pretos-velhos.

Norma toma fôlego e continua:

– Certa feita, quando expunha seu disfarçado preconceito, meu pai perguntou-lhe se, quando o operou de um tumor no pescoço, o Dr. Fritz tinha mudado sua forma de falar. Ou seja, se o sotaque alemão, habitual na manifestação, tinha cessado.

– Essa foi ótima, Norma. E o que ele respondeu? – interroga Orlando.

– Conta meu pai que ele pigarreou, tossiu, ficou vermelho, mas admitiu que não pensara no assunto ao ser beneficiado pelo Dr Fritz. Achei uma postura decente, porque não tentou adaptar os conceitos doutrinários ao seu interesse.

E Norma ainda acrescenta:

– E, após esse confronto com a verdade, nunca mais o companheiro se referiu ao assunto da forma a que se habituara.

– Quando falamos das manifestações de pretosvelhos e de indígenas, não estamos defendendo o uso de qualquer tipo de acessório material por parte dos espíritos: fumo, bebida, vela, etc. Muito menos de processo ritualístico no fenômeno. Tratamos da forma de expressão dos espíritos, levando em conta os condicionamentos que levam daqui e que, inclusive, os identificam – esclarece Adélia.

– Mas, pelo que presenciamos, só podem ser identificados e reconhecidos os espíritos que já reencarnaram em corpos brancos. Só esses têm direto de mostrar os hábitos que distinguem sua cultura – enfatiza Orlando.

– Apesar dessa discriminação, há exemplos de companheiros lúcidos e comprometidos com a doutrina e que tiveram comportamento diferenciado. Registra, o Anuário Espírita de 1986, do Instituto de Difusão Espírita de Araras – São Paulo, que Cairbar Schutel alimentava muita confiança num Espírito conhecido como “pai Jacó” – conclui Norma.

E a conversa, entre os amigos, mudara de rumo. Passaram a comentar a função consoladora do Espiritismo, identificada com o Evangelho do Mestre Jesus, que a todos ama, sem distinção de qualquer espécie, muito menos a social.


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