Os Espíritas e a Política - a superação de um preconceito
Pablo Baracho


É importante, antes de tudo, esclarecer que o presente artigo não vem defender a entrada do Movimento Espírita, com sua capacidade de mobilização, tanto de estrutura física quanto de pessoas, na política; mas, muito pelo contrário, ressaltar a certeza de que o lugar do Movimento Espírita é na promoção do estudo da Doutrina Espírita, e na prática da caridade, em todos os seus aspectos, norteado pelos ensinamentos de nosso Mestre Jesus.

Se o Movimento Espírita, com sua estrutura e potencial de mobilização, por um lado, não deve entrar na política, pois essa não foi a razão de sua organização, tal não se dá, por outro, com os espíritas como cidadãos, indivíduos inseridos na sociedade, que não só podem como devem participar ativamente da vida política, por incontáveis razões, dentre as quais podemos citar duas: a primeira, porque vivem em comunidade e são seres políticos como outros quaisquer; e em segundo lugar, porque trazem em suas consciências a luz de uma doutrina reveladora, consoladora para toda a humanidade, e que deve ser levada ao conhecimento de todos.

O espírita também, como todo homem, é um ser político, e, por isso, tem todo o direito de participar ativamente da vida política de sua cidade, Estado ou País, se vocação para isso tiver. Se bem aproveitado, um mandato político se torna um meio eficaz de se praticar a caridade em grande amplitude, atingindo um grande número de pessoas necessitadas de auxílio.

Poder-se-ia alegar, em oposição a essa tese, que o espírita não deveria se envolver com a política, que está cheia de ambição, egoísmo, e oportunismo, tudo em desacordo com a caridade, humildade e simplicidade cristã. Tal posicionamento merece todo o respeito, por seus aspectos de verdade, mas cai perante o seguinte argumento: foi ensinado, no Evangelho Segundo o Espiritismo, em harmonia com toda a Codificação, capítulo 16, no item que fala sobre a “Utilidade providencial da riqueza. Provas da riqueza e da miséria”, que a riqueza é um motivo para a perdição do homem, mas, se bem utilizada, torna-se um meio de progresso. O Poder Político também é uma forma de riqueza, portanto, se bem utilizado, levará o homem, em sociedade, a evoluir intelectual e moralmente. Em outras palavras, não é a riqueza ou a política que são maus, mas sim os homens que delas se utilizam. Assim, pergunta-se: será que uma pessoa que aja à luz da Doutrina Espírita não poderia usar o poder político de um mandato para o bem da sociedade? E não se está afirmando aqui que um espírita seria um político perfeito, mas que seria, ao menos, um obstinado em fazer o bem, como tanto precisa nossa sociedade.

Outra razão para a participação ativa de espíritas na política é a divulgação dos princípios e ideais da doutrina, tanto de forma explícita, quanto implicitamente, pois o importante é a prática da caridade e a evolução individual e coletiva no caminho do bem. É mais que pertinente a esse respeito a “Parábola dos Talentos” do Mestre Jesus, relatada por Mateus, capítulo 25, versículos 14 a 30; e que também está no Evangelho Segundo o Espiritismo, em seu capítulo 16.

Poder-se-ia então questionar: e quais são as possibilidades que um político teria de divulgar e praticar os princípios e ideais da Doutrina Espírita? Resposta: imensas possibilidades. Se imaginarmos o quanto uma pessoa que aja à luz da Doutrina Espírita poderia contribuir, por exemplo, em discussões sobre leis que tratam de temas como aborto, pena de morte, eutanásia, combate à violência urbana e rural, distribuição de renda, ética na Administração Pública, etc, é que veremos quão grande é o potencial de divulgação dessa doutrina reveladora que terá um político. Aliás, não seria só a divulgação desses princípios, mas a sua colocação em prática, em forma de lei, para toda a sociedade.

Os espíritas e a política é um tema que tem despertado interessantes debates, e apaixonadas manifestações. O importante, nessa área, é separar o movimento espírita, com sua estrutura organizada, das iniciativas políticas individuais de seus membros, o que não quer dizer que a comunidade espírita, como grupo de pessoas que acredita em uma filosofia, deva rejeitar uma candidatura desse tipo. Não se deve votar em uma pessoa só porque ela é espírita, mas também não se deve rejeitá-la pela mesma razão, muito pelo contrário, na hora de votar, saber que um candidato é uma pessoa que age à luz da Doutrina Espírita deve ser avaliado como uma virtude positiva, e muito necessária para nosso meio político, tão materialista e corrupto.

É hora, mais uma vez, de se ter em mente a questão de número 932 de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, quando o autor pergunta: “Por que, no mundo, os maus, tão freqüentemente, sobrepujam os bons em influência?”, tendo a seguinte resposta: “Pela fraqueza dos bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, dominarão”.

Texto retirado do site Panorama Espírita - www.panoramaespirita.com.br