É importante,
antes de tudo, esclarecer que o presente artigo não vem defender
a entrada do Movimento Espírita, com sua capacidade de mobilização,
tanto de estrutura física quanto de pessoas, na política; mas,
muito pelo contrário, ressaltar a certeza de que o lugar do Movimento
Espírita é na promoção do estudo da Doutrina Espírita, e na prática
da caridade, em todos os seus aspectos, norteado pelos ensinamentos
de nosso Mestre Jesus.
Se o Movimento
Espírita, com sua estrutura e potencial de mobilização, por um
lado, não deve entrar na política, pois essa não foi a razão
de sua organização, tal não se dá, por outro, com os espíritas
como cidadãos, indivíduos inseridos na sociedade, que não só podem
como devem participar ativamente da vida política, por incontáveis
razões, dentre as quais podemos citar duas: a primeira, porque
vivem em comunidade e são seres políticos como outros quaisquer;
e em segundo lugar, porque trazem em suas consciências a luz
de uma doutrina reveladora, consoladora para toda a humanidade,
e que deve ser levada ao conhecimento de todos.
O espírita
também, como todo homem, é um ser político, e, por isso, tem
todo o direito de participar ativamente da vida política de sua
cidade, Estado ou País, se vocação para isso tiver. Se bem aproveitado,
um mandato político se torna um meio eficaz de se praticar a
caridade em grande amplitude, atingindo um grande número de pessoas
necessitadas de auxílio.
Poder-se-ia
alegar, em oposição a essa tese, que o espírita não deveria se
envolver com a política, que está cheia de ambição, egoísmo,
e oportunismo, tudo em desacordo com a caridade, humildade e
simplicidade cristã. Tal posicionamento merece todo o respeito,
por seus aspectos de verdade, mas cai perante o seguinte argumento:
foi ensinado, no Evangelho Segundo o Espiritismo, em harmonia
com toda a Codificação, capítulo 16, no item que fala sobre a “Utilidade
providencial da riqueza. Provas da riqueza e da miséria”, que
a riqueza é um motivo para a perdição do homem, mas, se bem utilizada,
torna-se um meio de progresso. O Poder Político também é uma
forma de riqueza, portanto, se bem utilizado, levará o homem,
em sociedade, a evoluir intelectual e moralmente. Em outras palavras,
não é a riqueza ou a política que são maus, mas sim os homens
que delas se utilizam. Assim, pergunta-se: será que uma pessoa
que aja à luz da Doutrina Espírita não poderia usar o poder político
de um mandato para o bem da sociedade? E não se está afirmando
aqui que um espírita seria um político perfeito, mas que seria,
ao menos, um obstinado em fazer o bem, como tanto precisa nossa
sociedade.
Outra razão
para a participação ativa de espíritas na política é a divulgação
dos princípios e ideais da doutrina, tanto de forma explícita,
quanto implicitamente, pois o importante é a prática da caridade
e a evolução individual e coletiva no caminho do bem. É mais
que pertinente a esse respeito a “Parábola dos Talentos” do Mestre
Jesus, relatada por Mateus, capítulo 25, versículos 14 a 30;
e que também está no Evangelho Segundo o Espiritismo, em seu
capítulo 16.
Poder-se-ia
então questionar: e quais são as possibilidades que um político
teria de divulgar e praticar os princípios e ideais da Doutrina
Espírita? Resposta: imensas possibilidades. Se imaginarmos o
quanto uma pessoa que aja à luz da Doutrina Espírita poderia
contribuir, por exemplo, em discussões sobre leis que tratam
de temas como aborto, pena de morte, eutanásia, combate à violência
urbana e rural, distribuição de renda, ética na Administração
Pública, etc, é que veremos quão grande é o potencial de divulgação
dessa doutrina reveladora que terá um político. Aliás, não seria
só a divulgação desses princípios, mas a sua colocação em prática,
em forma de lei, para toda a sociedade.
Os espíritas
e a política é um tema que tem despertado interessantes debates,
e apaixonadas manifestações. O importante, nessa área, é separar
o movimento espírita, com sua estrutura organizada, das iniciativas
políticas individuais de seus membros, o que não quer dizer que
a comunidade espírita, como grupo de pessoas que acredita em
uma filosofia, deva rejeitar uma candidatura desse tipo. Não
se deve votar em uma pessoa só porque ela é espírita, mas também
não se deve rejeitá-la pela mesma razão, muito pelo contrário,
na hora de votar, saber que um candidato é uma pessoa que age à luz
da Doutrina Espírita deve ser avaliado como uma virtude positiva,
e muito necessária para nosso meio político, tão materialista
e corrupto.
É hora, mais
uma vez, de se ter em mente a questão de número 932 de “O Livro
dos Espíritos”, de Allan Kardec, quando o autor pergunta: “Por
que, no mundo, os maus, tão freqüentemente, sobrepujam os bons
em influência?”, tendo a seguinte resposta: “Pela fraqueza dos
bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos.
Quando estes o quiserem, dominarão”.
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