CULPA-MÁGOA E OS MICROORGANISMOS
NA GÊNESE DAS DOENÇAS
Alberto Almeida
Folha Espírita: Como você define a culpa?
Alberto Almeida: A culpa é o resultado do distanciamento do
ser humano das leis de amor, ou seja, das leis divinas. Quando o indivíduo
toma consciência de que se afastou desses ditames e se queda
inerte ante a própria culpa, esta se torna uma culpa tóxica,
nociva e sem nenhum proveito. Por outro lado, aquele transgressor que
se dá conta de que não agiu corretamente e assume uma
postura responsável e positiva ante a sua própria consciência,
passa a vivenciar aquilo que Allan Kardec chama de arrependimento.
O arrependimento não pode ser confundido com a culpa tóxica,
pois esta potencializa o remorso e deixa a criatura paralisada. O arrependimento é a
capacidade que temos de nos fazer conscientes de que nos afastamos
da lei de amor, mas nos animamos na busca do caminho reto deixado à retaguarda
mediante conveniente reparação.
FE: E mágoa, o que é?
Almeida: Mágoa é o mesmo sofrimento da culpa às
avessas. Na culpa eu sofro pelo mal que fiz aos outros ou a mim mesmo
em função da minha pouca capacidade de apreender as leis
de amor, enquanto a mágoa é a dor que sinto quando alguém
me fere ou quando me deixo ferir por alguém em razão
de não conseguir articular a lei de amor dentro de mim mesmo
pelas vias do perdão. Quando não consigo perdoar alguém,
eu me magoo. A mágoa é o reverso da culpa. A culpa eu
estabeleço quando leso alguém e tenho dor de consciência;
a mágoa, quando me sinto lesado por alguém e fico com
raiva desse alguém.
FE: Por que algumas pessoas sentem culpa-mágoa, mas continuam
suas vidas, enquanto outras param de viver, sem ânimo para continuar?
Por que as reações são tão diferentes?
Almeida: Habitualmente, esse conteúdo de culpa e mágoa
se entrelaçam efetivamente em nossas vidas. À proporção
que vamos nos dando conta de que estamos lesando alguém ou lesando
a nós mesmos, de que estamos nos sentindo lesados e machucados
por alguém ou por nós mesmos, temos dois caminhos a seguir:
um de alimentar a culpa e a mágoa, e outro de diluí-las.
Quando as alimento, fixo-me, estagno e crio um movimento de petrificação,
de imobilidade e encaminho-me para a doença, que irá desaguar
no corpo caso eu não redirecione essa postura. Quando eu faço
a escolha por dissolver a mágoa-culpa, estou tomando uma direção
exatamente oposta, mobilizando o autoperdão, no caso da culpa,
e o heteroperdão no caso da mágoa, liberando-me, portanto,
daquele conflito, dando um salto de qualidade e aprendendo com aquela
experiência sofrida que experimentei. Assim, são duas
dinâmicas absolutamente diferentes. Uma me leva para a enfermidade,
e a outra para a cura. A mágoa e a culpa que eu sustento me
fazem adoecer, e a mágoa e a culpa que eu trabalho positivamente
me fazem crescer.
FE: Qual a influência desses estados psicológicos no
corpo físico? Por que eles favorecem a ação de
microorganismos causadores de doenças?
Almeida: A mágoa e a culpa instalam-se em nível psíquico,
repercutindo no corpo perispiritual. Se não fazemos o desabafo
ou se não estabelecemos a corrigenda como propõe André Luiz
no livro Evolução em Dois Mundos, surgem no nosso campo
perispiritual zonas de remorso, resultado das nossas atitudes e posturas
que estão sendo sustentadas teimosamente sem uma resolução
plausível. Essa zona de remorso cria um campo de solução
de continuidade na interação do corpo perispiritual e
do corpo físico, abrindo espaço para a vulnerabilidade
numa área do corpo, num tecido ou então no organismo
por inteiro, gerando, assim, a manifestação de disfuncionalidades
orgânicas ou de processos patológicos e físicos,
bem como de distúrbios que envolvem as emoções
ou de transtornos que envolvem a mente. Desse modo, esses conteúdos,
se não são solucionados a tempo, vão se refinando
até chegar ao corpo, que é a instância última
que a natureza nos propõe para que possamos reverter o nosso
caminho através da corrigenda, do autoperdão e do perdão
ao outro, ambos originários na misericórdia que devemos
ter. Por isso, Jesus propôs o bem-aventurados os misericordiosos,
pois, quando não exercemos a misericórdia, caminhamos
para a instalação das doenças no corpo físico.
FE: O senhor falou em autoperdão. Haveria algum limite para
esse perdoar a si próprio?
Almeida: O autoperdão sempre que se manifesta é positivo.
Algumas pessoas, todavia, usam a expressão autoperdão
para camuflar o seu desculpismo, a sua acomodação e estabelecer
as suas permissividades. Na verdade, esses que assim se posicionam
estão usando um pseudo-autoperdão para se autorizarem
a permanecer nos erros, nos equívocos. Esses ainda não
despertaram, enganam-se a si próprios e pensam que estão
convencendo os outros e enganando a Deus. Eles haverão de despertar
para a necessidade do verdadeiro perdão que vem do interior
da alma e que não se manifesta só com palavras, mas que
se concretiza através dos esforços enaltecidos pelo exercício
das boas ações.
FE: Quais os tipos de doenças físicas e mentais mais
comuns relacionados à culpa-mágoa?
Almeida: O espírito André Luiz nos diz que, tirando
a imprevidência, a imprudência e a falta de higiene, todas
as patologias derivam da relação profunda do espírito
e seus campos energéticos mais profundos, que vão aos
poucos se manifestando no corpo. Então, poderíamos afirmar
que na base da maioria das patologias vamos encontrar a culpa e a mágoa,
uma ou outra e, habitualmente, as duas entremeadas, como sendo as verdadeiras
causas das doenças infecciosas, degenerativas, alérgicas,
etc., localizadas ou sistêmicas, de natureza física ou
mental. Assim, vamos tendo esses conteúdos desequilibrantes
de mágoa-culpa como sendo a verdadeira gênese das patologias
que alcançam os homens na Terra.
FE: Quais os recursos das psicoterapias para auxiliar a cura de pessoas
contaminadas por esses estados negativos?
Almeida: Toda abordagem psicológica ajuda para que se possam
trabalhar essas sombras que carregamos dentro de nós mesmos.
Qualquer providência que leve o indivíduo à autoreflexão
e à autopercepção, e que busque naturalmente projetá-lo
para a saúde, o ajudará na superação dos
seus limites, a vencer a mágoa e a trocar a culpa pelo perdão.
Efetivamente, o Evangelho é, indiscutivelmente, o maior repositório
de amor que a história da humanidade conheceu e está sempre
nos inspirando a fazer esse trabalho de profundidade e sem nenhuma
concorrência com qualquer psicoterapia ou abordagem psicológica.
Ao contrário, sendo um instrumento catalisador, fomentador,
agenciador e sinergicamente terapêutico, o Evangelho é o
grande espaço onde podemos nos encontrar para promovermos essas
mudanças tão necessárias que não se limitam
ao trabalho de dissolver sombras, porém, e sobretudo, de ampliar
luzes dentro de nós mesmos.
FE: O espírito desencarnado adoece também quando carrega
culpa e mágoa?
Almeida: Sim, os espíritos que saem do corpo físico
levando as dores da sua experiência corpórea permanecem
com os mesmos sentimentos, pensamentos e fixações, o
que faz com que essas entidades alterem muitas vezes a sua dinâmica
orgânica espiritual, visto que o perispírito é um
organismo vivo, embora espiritual, composto de células, segundo
nos coloca o espírito André Luiz. Esses espíritos
podem materializar no campo perispiritual, já fora do corpo
físico, disfunções a tal ponto graves que acabam
por perder a conformação humana e, se assumem posições
de monoideia, compõem as formas chamadas de ovóides nos
processos tão clássicos de vampirismo.
FE: O que devemos fazer para não cair nesses estados infelizes?
Almeida: Desenvolver o autoconhecimento para sabermos quem nós
somos e, assim, perscrutar na alma onde estão os pontos de estrangulamento
do nosso ser que impedem a seiva da vida de se manifestar; mergulhar
para descobrir onde está o lodo no fundo da piscina, conforme
diz o espírito André Luiz, e buscar limpá-la;
lançar um olhar para dentro de nós mesmos para irmos
além da culpa e da mágoa e descobrir que somos feitos
de material divino. Somos lucigênicos, temos uma dimensão
luminosa por natureza, intrínseca à nossa própria
criação. Somos seres que holograficamente detemos o criador,
somos parte do divino, como filhos do altíssimo na expressão
de Davi: Vós sois filhos do altíssimo, vós sois
deuses. Assim, quando fazemos esse mergulho introspectivo, apercebemo-nos
da nossa grandiosidade e, tomando ciência da capacidade que temos
de ser co-criadores no universo, aos poucos vamos fazendo as elaborações
necessárias, as transformações imprescindíveis,
as mutações indispensáveis nas quais as nossas
gangas vão sendo desfeitas. O metal precioso começa a
surgir, então, fazendo resplandecer a imagem do divino quando
alguém nos observa. Os grandes homens que fizerem isso são
chamados de santos, heróis e mártires porque já conseguiram
empreender essa caminhada, e dentre eles a figura de Jesus representa,
inegavelmente, a nossa referência primeira e última para
que possamos acessar o criador trabalhando essas nossas dificuldades
interiores. Logo, para que possamos efetivamente operacionalizar esse
movimento intransferível é necessário fazer o
que Santo Agostinho propõe a Allan Kardec, quando sugere o autoconhecimento
para que possamos melhorar o nosso caráter, combater as nossas
más inclinações, de sorte que diariamente nesse
exercício de autoburilamento possamos aprender a amar-nos, a
autoperdoar-nos, e aprender a amar e a perdoar os outros. É desta
forma que, aos poucos, vamos descobrindo, como deus que somos, o deus
que é o outro, e, caminhando lado a lado, vamos entrando num
processo de pacificação, de iluminação
e de felicitação, não só individual, mas
de felicidade coletiva, trabalhando para que surja na Terra aquele
reino a que Jesus se reportava. É necessário, portanto,
fazer esse movimento de ruptura com a cristalização para
operarmos a nossa cristificação.
O espírito André Luiz nos diz que, tirando a imprevidência,
a imprudência e a falta de higiene, todas as patologias derivam
da relação profunda do espírito e seus campos
energéticos mais profundos, que vão aos poucos se manifestando
no corpo.
Quando alimentamos a culpa e a mágoa, fixamo-nos, estagnamos
e criamos um movimento de petrificação, de imobilidade
e encaminhamo-nos para a doença, que irá desaguar no
corpo caso não redirecionemos essa postura.
Alberto Almeida é médico e terapeuta transpessoal, com
formação em Homeopatia, Dinâmica de Grupos, Terapia
Regressiva a Vivências Passadas, Terapia Familiar Sistêmica
e Programação Neurolinguística (PNL) e diretor
científico da Associação Médico-Espírita
do Pará.