O centro espírita é presidido por Jair,
trabalhador esforçado. Na reunião com os dirigentes de
departamentos, ele fala da sua preocupação com o ambiente
da casa espírita.
– Meus amigos, nós precisamos trabalhar melhor a fraternidade entre
os companheiros da nossa casa espírita. Sem fraternidade, como vivenciar
os princípios da Doutrina Espírita?
Jussara, dirigente do departamento doutrinário, intervém.
–
Concordo, Jair! Se não sabemos ser fraternos entre nós, como vamos
saber sê-lo com os que aqui vêm em busca de ajuda, orientação
e esclarecimento?
Ao que Bernardo, coordenador geral do estudo sistemático, acrescenta:
– Eu acho, companheiros, que para haver uma fraternidade legítima,
há que existir transparência no relacionamento entre as pessoas.
Sem isso, forja-se uma pseudo-fraternidade, muito próxima do farisaísmo.
E Nair, responsável pelo departamento de educação espírita
infanto-juvenil, propõe:
– Já temos, então, o tema para o encontro de trabalhadores
deste ano: “A fraternidade na casa espírita”.
Todos concordam. Vários outros assuntos foram tratados. Terminada a reunião,
Jair é procurado por Isabel, colaboradora da área de divulgação.
– Jair! Na reunião não quis me pronunciar, mas eu preciso
falar com você.
– Por que não falou na reunião, Isabel?
– Não quis me expor. Vejo muita falsidade nas palavras de alguns
que se dizem seus amigos!
– Que é isso, Isabel?! Os companheiros têm demonstrado, pelo
trabalho que realizam, o quanto estão buscando se envolver com a doutrina
e com o centro.
E Jair ainda pondera.
– A questão, Isabel, não é de ser ou não ser
meu amigo. O importante é a fidelidade à doutrina e o envolvimento
com a nossa casa espírita. Se não amamos a casa que nos acolhe,
não seremos capazes de cumprir os compromissos do trabalho assumido.
Isabel continua.
– Muitos na sua frente são uma coisa, por trás são
outra!
– Ora, minha irmã, não se deixe levar por esses pensamentos.
Os espíritos infelizes estão à procura de mentes invigilantes,
para desarticular o trabalho do bem.
– Você não deve estar sabendo, Jair, mas há muita insatisfação
na casa.
Por necessidade de trabalho, Jair se despede de Isabel um pouco preocupado com
o que ouvira. Dias depois, em conversa com Isidoro, vice-presidente do centro,
ele expõe essa sua preocupação.
– Que dificuldade tem a Isabel, Isidoro! Só sabe ver defeitos nos
outros. E percebo que ela visa, principalmente, os que estão fazendo um
bom trabalho no centro.
– É ciúme, Jair! Por não conseguir influenciar você com
suas ideias, ela está sentindo-se desprestigiada. E, pelo visto, não
está sabendo lidar com isso.
Os dois se despedem e Jair encontra Isabel na saída do centro.
– Jair, abra seu olho! O Bernardo vai acabar lhe dando grandes decepções.
Não tem coragem de dizer-lhe diretamente o que pensa. Mas, nas suas costas,
surra-lhe o lombo!
– Isabel! Isabel! Não faça isso. O Bernardo é um dos
bons cooperadores de nosso centro. É um trabalhador assíduo, sério
e confiável.
– Você não acredita mesmo em mim, não é, Jair?
– Não vou mentir, minha irmã. Pondero muito o que me diz,
pois todos os seus sombrios prognósticos, sobre alguns companheiros, falharam.
– Como assim?
– Aqueles que você mais critica são os que mais colaboram
para o progresso de nossa casa espírita, em todos os sentidos.
Isabel sai da conversa um tanto decepcionada, por não conseguir convencer
Jair das suas ideias. Ela pega carona no carro de Inês, novata companheira
do centro.
– O Jair, Inês, gosta de ser bajulado. No centro, ele só prestigia
os bajuladores.
– Que é isso, Isabel?!
– É isso mesmo, ele adora uma bajulação.
– Pois eu acho o Jair uma pessoa séria e responsável.
– Ah, minha irmã! Não fossem os bons espíritos, o
centro estaria numa pior!
– Se tem certeza disso, Isabel, por que continua no centro?
– É pelos guias espirituais que continuo lá, Inês.
Confio neles!
– Sou nova na doutrina e no centro. Assusta-me o que estou ouvindo, Isabel!
– O que assisto lá, Inês, é muita falsidade e muita
bajulação. Só quem bajula ou agrada o presidente é que
tem vez. Quem diz a verdade é colocado de lado.
– Suas palavras me preocupam, Isabel, pois o Jair me convidou para participar
de um novo trabalho que será criado na área assistencial. E eu
não sou bajuladora.
– O quê?! O Jair convidou você para participar desse novo trabalho
assistencial?
– Sim! Convidou-me para começar logo.
Isabel, no dia seguinte, encontra Jair na secretaria do centro.
– Mas, Jair! Você convidou a lerda da Inês para o trabalho
junto às famílias carentes?
– O nome dela, Isabel, foi indicado por três dos quatro diretores
do centro. Ela apresenta senso de humanidade que a credencia para a tarefa.
– Escuta o que estou dizendo, essa moça ainda vai criar grandes
dificuldades para sua administração, Jair. Conheço-a muito
bem. Você um dia me dará razão!
– Ora, Isabel! Já observamos que toda pessoa que ascende a uma posição
de responsabilidade na casa, você a bombardeia com críticas infundadas,
atitude típica de gente ciumenta e invejosa.
– Que é isso, Jair?! Eu, invejosa?! Ciumenta?!
– Pelo menos, Isabel, é isso que você nos faz crer por suas
atitudes.
– É assim mesmo! A gente ajuda, se sacrifica, faz tudo pelo centro
e, no final, recebe essa paga.
– Isabel, você recebe o resultado do seu comportamento, nada mais,
minha irmã.
– Não importa, pois eu continuarei aqui, porque confio nos guias
da casa.
– Tudo bem, Isabel! Espero somente que você compreenda melhor a doutrina
espírita e vivencie realmente os seus ensinamentos.
Mais tarde, Inês, ansiosa procura Jair.
– Jair, quero lhe falar sobre o convite que me fez. Acho que não
posso aceitá-lo. Estou ainda em processo de adaptação na
casa.
E Jair, que já esperava que Inês estivesse com a cabeça feita
por Isabel, tenta aconselhá-la.
– Inês, minha irmã, não se deixe levar pelo que os
outros dizem.
– Em que sentido, Jair?
– Busque a verdade você mesma, minha irmã.
– Não estou entendendo!
– Analise toda informação que lhe chega sobre as pessoas.
Aceitando informações equivocadas, por falta de reflexão,
você poderá tirar conclusões erradas, prejudicando até mesmo
seu futuro em termos de realização espiritual.
– Pensando bem, acho que você tem razão. Avaliarei melhor
seu convite. Voltarei ao assunto em breve.
Inês, dias depois, aceitou o convite de Jair. E Isabel, por um processo
natural, foi ficando isolada, pois passara a criticar inconsequentemente tudo
e todos. E, assim, passara a se envolver com espíritos afins com seu modo
de ser e que a distanciavam, cada vez mais, daqueles que realmente poderiam ajudá-la.
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