"Vi, deitadas
em suas mortalhas de pedra ou de areia, as cidades famosas da
antigüidade: Cartago, em brancos promontórios, as cidades gregas
da Sicília, os arrabaldes de Roma, com os aquedutos partidos
e os túmulos abertos, as necrópoles que dormem um sono de vinte
séculos, debaixo das cinzas do Vesúvio. Vi os últimos vestígios
das cidades longínquas, outrora formigueiros humanos, hoje ruínas
desertas, que o sol do Oriente calcina com suas carícias
ardentes.
Evoquei
as multidões que se agitaram e viveram nesses lugares: vi-as
desfilar, diante do meu pensamento, com as paixões que as consumiram,
com seus ódios, seus amores e suas ambições desvanecidas, com
seus triunfos e reveses – fumaças dissipadas pelo sopro dos tempos.
Vi os soberanos, chefes de impérios, tiranos ou heróis, cujos
nomes foram celebrados pelos fastos da História, mas que o futuro
esquecerá.
Passavam
como sombras efêmeras, como espectros truanescos que a
glória
embriaga uma hora, e que o túmulo chama, recebe e devora.
E disse comigo mesmo: Eis em que se transformam os grandes
povos, as
capitais gigantes – algumas pedras amontoadas, colinas
silenciosas, sepulturas sombreadas por mirrados vegetais,
em cujos ramos o
vento da noite murmura suas queixas."
(in,
Depois da morte, Léon Denis, FEB, 18ª edição, Introdução)
Essa
impressionante descrição feita por Léon Denis acerca da sucessão
dos séculos com suas civilizações, descreve muito bem os tempos
atuais. Governantes igualmente arrogantes, países em nada diferentes
daqueles impérios sanguinários do passado apesar da polidez diplomática,
cujos registros nossas ingênuas crianças estudam nas aulas de
História, sem perceberem a estupidez do halo heróico dado aos
impérios guerreiros do passado com seus tiranos e falsos heróis.
A
prisão emblemática de Saddam Husseim ecoa pelo mundo qual vitória
definitiva do Bem contra o Mal. O rebanho humano, manipulado
e manietado pelas grandes corporações da informação, crê – momentaneamente – que
a paz vai finalmente reinar no planeta. Não percebe que a violência
está dentro de cada um. Que a paz igualmente deve começar em
cada um e não de cima para baixo, por decretos ou como conseqüência
de preconceitos, discriminações ou perseguições a povos ou grupos
sociais.
O
terrorismo, visto como atitude extrema de radicais de qualquer
matiz, não deixará de acontecer pelo mundo. O terrorismo de estado
está cada vez mais presente e causa verdadeiras catástrofes sociais
através da extorsão legalizada que inviabiliza a realização dos
pequenos sonhos individuais. O mundo cada vez mais se parece
com aquela prisão a céu aberto antevista pelos filósofos. Democracia,
liberdade e justiça são palavras cada vez mais desprovidas de
sentido, pois aplicam-se a interesses e conveniências de momento.
Nunca
a desfaçatez e as mentiras consentidas foram tão populares. Mentir
não é errado quando se visa um fim útil, dizem alguns governantes.
Ou seja, os fins justificam os meios. O que se vê pelo mundo é um
novo holocausto, um holocausto moral, onde cada vez mais diminuem
as possibilidades de fuga do atual sistema opressivo e repressor.
Afinal, remendo novo em tecido velho só aumenta o buraco.
A
influência dos Estados Unidos sobre o mundo, em especial a política
internacional adotada após o atentado de 11 de setembro de 2001,
sinaliza o surgimento de uma nova "guerra fria", um novo anti-semitismo
ou, pelo menos, a criação de forte animosidade entre ocidentais
e muçulmanos, tendo os EUA à frente como xerife do planeta.
A
vida perdoa os simples mas não os ingênuos. Estes pagarão um
alto preço pela ignorância escolhida como meio de vida. A alienação
conduz à vulnerabilidade diante das constantes manipulações políticas,
permitindo amplo espaço de manobra para os espertalhões e para
os grandes e pequenos tiranos.
Conta-se
que certo rei provocou os sábios de seu reino para que criassem
uma frase que se aplicasse a todos os momentos e circunstâncias,
a todos os lugares e a todas as épocas. Depois de muito refletir,
os sábios disseram: "também isso passará". De fato, como bem
lembra Léon Denis, os impérios de ontem e de hoje não são eternos.
Cairão por si mesmos. Seja pelo gigantismo causado pela própria
expansão, seja pelas fragilidades engendradas pelo misto de individualismo
e megalomania de uns ou de todos. Parece que a auto-implosão é questão
de tempo.
A
humanidade sofre com a atual transição. Percebe-se que a atual
civilização, decrépita e enferrujada, não tem superestrutura
moral para se sustentar, por isso apela para a violência, num
claro retrocesso histórico e plena implantação da barbárie.
A
substituição do tecnocentrismo por um novo antropocentrismo talvez
seja a saída mais próxima para se evitar catástrofes sociais
ainda mais graves. A dor e os sofrimentos coletivos potencializam
as mudanças estruturais que já se delineiam, apesar do crescimento
da intolerância e do recrudescimento do espírito da inquisição,
dos fundamentalismos e da cultura do consumo que não trazem felicidade
nem paz duradoura.
|